Une ferme de la Bresse et ses poules. Illustration.
“A quinta da Bresse, o cheiro do feno e do pão, e um avô que falava pouco mas mostrava tudo.
Nasci numa quinta da Bresse, onde os campos são baixos e o céu ocupa todo o espaço. A casa era comprida, de adobe, com uma chaminé tão larga que se podia estar sentado dentro dela. No inverno, era ali que vivíamos, todos apertados à volta do fogo, e no verão vivíamos lá fora, do nascer ao pôr do sol.
Meu pai confiava mais no céu do que no almanaque. Olhava para o horizonte de manhã e sabia se era preciso fazer o feno ou esperar. Tínhamos vacas, alguns porcos, e as galinhas da Bresse que minha mãe tratava como princesas, porque eram elas que traziam o dinheiro da feira. Ainda vejo minha mãe a falar-lhes em dialecto enquanto lhes atirava o grão.
O que mais guardo são os cheiros. O feno cortado que seca, tem um cheiro a açúcar e a pó ao mesmo tempo. O pão que minha avó fazia uma vez por semana no forno de lenha, e que não tínhamos direito de tocar antes de arrefecer, o que era uma verdadeira tortura. O leite morno de manhã, a estrebaria no inverno, a sopa que aquecia o dia inteiro ao canto do fogo. Quando fecho os olhos, estes cheiros voltam antes das imagens.
Meu avó falava pouco. Levava-me com ele aos campos e mostrava-me, sem explicar. Como segurar numa foice para não cansar as costas, como reconhecer uma terra boa de uma terra cansada só pela cor. Dizia que um homem que sabe trabalhar com as mãos nunca fica completamente perdido. Pensei nesta frase toda a vida, e ainda penso nela, especialmente agora.
Não éramos ricos, mas nunca me senti pobre. Havia sempre comida, havia o trabalho, e havia os domingos em que minha mãe punha a toalha limpa. Para uma criança, era um mundo inteiro.
Une cuisine de ferme à la lampe, la nuit. Illustration.
“Os anos de guerra vistos por uma criança da Bresse: as vozes baixas, o prato a mais, e o maquis de que não se falava.
Eu era pequeno durante a guerra, mas não se esquecem estas coisas. No Ain, havia o maquis, nas florestas e nos planaltos. Não se dizia a palavra diante das crianças, mas sentia-se por toda a parte.
Certas noites, homens passavam. Batiam duas pancadas, depois uma, à porta da cozinha. Meu pai abria sem acender a luz. Minha mãe punha um prato a mais na mesa, uma sopa, pão, às vezes um bocado de toucinho que se guardava para isso. Os homens comiam depressa, sem tirar os casacos, e partiam antes do amanhecer. De manhã, o prato estava lavado e arrumado, e ninguém fazia perguntas. Tinha compreendido muito cedo que há coisas que se fazem sem falar delas.
Uma vez, soldados alemães vieram à quinta em pleno dia, pelos animais. Meu pai manteve-se calmo, as mãos bem apoiadas na mesa, e respondeu lentamente, como se tivesse todo o tempo do mundo. Lembro-me de ter agarrado a saia de minha mãe com tanta força que ela teve de ma fazer largar depois. Levaram um porco e partiram. Meu pai não disse nada nessa noite, mas pousou a mão na minha cabeça, e isso valia todas as palavras.
Quando chegou a Libertação, vi homens chorar pela primeira vez. Homens duros, camponeses, que nunca choravam. Houve bandeiras em Bourg, canções, vinho tirado das caves onde o tínhamos escondido. Não compreendia tudo, mas compreendia que algo pesado tinha caído dos ombros de toda a gente.
Pediram-me, nas oficinas, para contar essa época. É curioso, as datas escapam-me às vezes agora, mas essas noites, as duas pancadas depois uma, o prato a mais, isso encontro-o sem esforço. Parece que é normal, que o que fez bater o coração se agarra mais forte.