A manhã em que parti de Vila do Conde com uma mala de cartão, a travessia da fronteira, e o momento em que percebi que já ninguém me entendia. A saudade de uma terra e da pessoa que eu era nela.
Tinha vinte e dois anos quando deixei Vila do Conde. Era uma manhã de outubro, ainda escura, e a minha mãe não quis vir à estação. Disse que tinha o pão no forno, mas eu sei que era para eu não a ver chorar. Ficou à porta, de avental, e acenou até o autocarro virar a esquina. Foi a última vez que a vi assim, inteira, antes de os anos a tornarem pequena.
Levava uma mala de cartão e um saco com pão, queijo da serra e uma garrafa de água que o meu pai me pôs na mão sem dizer nada. O Manuel esperava-me em França. Tínhamos casado em junho, e ele tinha ido à frente, para o trabalho na construção, perto de Bordéus. Eu seguia atrás, como faziam todas as mulheres da minha rua.
A viagem de comboio durou dois dias. Lembro-me de atravessar a fronteira e de perceber, de repente, que já não compreendia o que diziam à minha volta. As pessoas falavam e eu só ouvia barulho. Foi aí que senti, pela primeira vez, esse aperto que nunca mais me largou: a saudade não é só de quem deixamos, é da pessoa que éramos quando ainda nos entendiam.
Em Bordéus, fui mulher a dias em casas que não eram a minha. Aprendi o francês a ouvir, palavra a palavra, como quem apanha migalhas. Durante anos sonhei em português e acordei em francês. Mandava cartas à minha mãe todas as semanas, e ela respondia com a letra grande e tremida, a contar-me as coisas pequenas: que a figueira tinha dado bem, que a vizinha tinha tido um neto, que rezava por nós todas as noites.
Nunca mais voltei a viver em Portugal. Mas há uma coisa que ninguém me tirou. Quando fecho os olhos, ainda oiço a minha mãe a chamar-me da janela, ao fim da tarde, com aquele nome que só ela dizia daquela maneira. E enquanto eu me lembrar dessa voz, uma parte de mim nunca saiu de Vila do Conde.