Costa portuguesa, anos 1960. Evoca o porto de Vila do Conde e as redes que secavam ao sol. · Côte portugaise · 1962
“Uma pequena casa no fim de uma rua de pedras, o riso das primas, e o lugar vazio do pai que tinha partido para trabalhar em França.
A nossa casa ficava no fim de uma rua que subia em direcção ao alto da aldeia. As paredes eram caiadas e o telhado tinha telhas da cor de barro que a minha avó raspava na primavera quando nelas crescia musgo. À frente, havia um pequeno pátio onde a minha mãe pendurava a roupa a secar entre dois fios, e atrás, uma horta onde cresciam couves, favas, e uma limoeira que nunca dava muita fruta mas que o meu avó gostava na mesma.
Eu dormia no mesmo quarto que as minhas duas primas, Aldina e Lurdes. O colchão era de lã e tinha de se bater todos os sábados. A Aldina tinha dois anos mais do que eu, e era ela que decidia o que fazíamos quando chegávamos da escola. Íamos ao porto ver os barcos a regressar, procurávamos conchas na praia de Mira quando alguém nos levava, brincávamos a esconder-nos nas redes que estavam a secar.
O meu pai partiu no ano em que fiz nove anos. Partiu para França, para Bordéus, onde um primo lhe tinha arranjado trabalho numa obra. No início, não entendia muito bem o que é que isso significava. Sabia que ele estava longe e que ia regressar, e que as cartas demoravam muito tempo a chegar. De dois em dois ou três meses, um vale chegava aos correios da aldeia, e a minha mãe punha o lenço para ir buscá-lo. Eu acompanhava-a. O funcionário dos correios falava alto e toda a gente sabia quanto é que havia no envelope, o que me constrangia, mas a minha mãe não parecia dar por isso.
À noite, a minha mãe escrevia ao meu pai. Escrevia devagar, ajudando-se de um pequeno dicionário que lhe tinham oferecido quando se casou. Ela contava-me o que escrevia, porque queria que eu me habituasse à ideia de que ele existia, o meu pai, lá longe, naquela cidade de que eu só conhecia o nome. Bordéus. Achava que soava como uma palavra de cozinha.
Quando penso naqueles anos, revejo sobretudo cores. O azul muito pálido do céu acima do telhado, o vermelho escuro dos tomates que a minha mãe fazia secar para o inverno, o castanho pousento da rua depois de uma semana sem chuva. Revejo também o cheiro da roupa molhada que batia ao vento, e o sabor do pão de milho ainda morno do forno do padeiro. São coisas que não voltam mais, excepto quando fecho os olhos. E mesmo com os olhos fechados, às vezes, tenho dificuldade.
Uma estação em Portugal; a imagem evoca a viagem de comboio que Rosa fez com sua mãe em direção à França. · 1965
“Onze anos, uma pequena mala, e três dias de comboio através de Espanha com minha tia Conceição para encontrar um pai que não via há três anos.
Minha mãe preparou minha mala na véspera. Meteu lá dois vestidos, roupa interior, um sabonete, e um envelope com meus documentos costurado dentro do forro. Dizia que roubavam muito nos comboios, e que se alguém tentasse tirar-me o envelope, teria primeiro de me arrancar a mala. Aperteei-a contra mim durante três dias.
Minha tia Conceição tinha vindo de Coimbra para me levar. Era uma mulher que falava pouco mas que nunca largava minha mão na multidão. A filha dela já estava em Bordéus há dois anos, e ela aproveitava minha viagem para a ir ver. No momento das despedidas, no cais de Porto-Campanhã, minha mãe beijou-me três vezes e disse-me, sem chorar, que devia comer bem e estudar bem. Foi ela que chorou, mais tarde, quando o comboio começava a afastar-se. Virei-me para a janela e vi seu lenço preto a agitar-se, depois a tornar-se um ponto, depois nada.
A viagem durava três dias com as correspondências. Na fronteira espanhola, descemos porque os carris não tinham o mesmo espaçamento e era preciso mudar de comboio. Homens em uniforme passavam e olhavam os passaportes. Tia Conceição segurava-me forte pelo ombro, e cada vez que um militar a olhava, ela baixava os olhos. Eu fazia como ela.
Em Madrid, dormimos num banco numa sala de espera que cheirava a cera quente. Uma mulher trouxe-nos pão e um pouco de chorizo, e tia Conceição falou-lhe em espanhol, o que me pareceu estranho porque não sabia que ela falava espanhol. Em Hendaia, passamos para França. Lembro-me do dia que nascia no céu e dos campos que desfilavam, mais verdes do que o que tinha conhecido. Tudo me parecia grande e novo.
Em Bordéus Saint-Jean, meu pai esperava-me no cais. Tinha engordado um pouco. Usava um casaco que não lhe conhecia. Quando me viu, deu um passo para trás, como se quisesse ter a certeza de que era eu, depois levantou-me do chão e abraçou-me tão forte que chorei sem saber porquê. O que ele disse, ainda me lembro. Disse, *minha menina, agora estamos juntos*. Minha pequena, agora estamos juntos.
Compreendi nesse dia, sem conseguir formular, que minha infância em Portugal tinha terminado. Não era exatamente triste. Era outra coisa. Era um começo com, dentro, um fim que não tinha escolhido.
Baile da comunidade portuguesa, Bordéus, início dos anos 1970. · Bordeaux, France · 1971
“Numa noite de sábado no centro comunitário português da rua Bouquière, uma orquestra que misturava fado e yé-yé, e um rapaz que dançava mal e o sabia.
A entrada de um apartamento em Bordéus, a envelopecastanha na mesinha. Como em casa de Madame Lacombe. · Bordeaux, France · années 1980
“Trinta e quatro anos a limpar escritórios e apartamentos em Bordéus. Os patrões que se lembravam do meu nome, os que não se lembravam, e o que a minha mãe dizia sobre a dignidade.
Uma estação de comboios no norte de Portugal. Evoca a manhã em que Rosa partiu de Vila do Conde rumo a França.
“A manhã em que parti de Vila do Conde com uma mala de cartão, a travessia da fronteira, e o momento em que percebi que já ninguém me entendia. A saudade de uma terra e da pessoa que eu era nela.